quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

ONTEM EU CHOREI!


           Ontem eu encontrei um amigo, demos um rolé e fomos assistir a uma partida de futebol em um bar.

              Encontramos uma mesa próxima à TV, nos acomodamos, pedimos uma cerveja e começamos a assistir à partida.

             Fomos interrompidos por um senhor que conhecia esse o Negão (meu amigo) e que foi até nossa mesa e começou a conversar com ele. Se apresentou como Juvenal, cumprimentou-me e contou que havia trabalhado com o sr. Luis (pai do Negão), quando o Negão era apenas um rapazote.

          Hoje o Negão tem 42 anos e o senhor Juvenal  tem mais de 50. Ambos se lembravam do do sr. Luis como pessoa rigorosíssima! Porém, justa!

             O pai do Negão, tinha um caminhão truck e fazia frete pela cidade. Contratava vários ajudantes para ajudar a carregar e descarregar o caminhão. O senhor Juvenal havia sido um desses ajudantes. Contou que o sr. Luis só contratava rapazes jovens e solteiros e que pagava muito mal. Os ajudantes trabalhavam muito e recebiam pouco. Nesse momento o Negão concordou e comentou que até a ele o pai pagava mal. No final do sábado, quando se encerrava a semana de trabalho, o sr. Luis pagava a todos os ajudantes e, ao Negão pagava apenas a metade do que pagava aos demais empregados. E o Negão não tinha regalias! trabalhava tanto ou mais que os demais ajudantes!

             Foi então que o sr. Juvenal deu o testemunho que fez meu amigo chorar. Ele contou que, embora rigoroso, o sr. Luis era absolutamente justo. Nunca atrasou os salários dos empregados e só cobrava de cada um, o que cada um tinha condições de executar. Não passava a ninguém uma tarefa que a pessoa não pudesse cumprir. Nunca se esquecia do aniversário dos empregados e, na semana do aniversário ele presenteava o aniversariante com a metade do pagamento da semana. Ajudava a todos os empregados que lhe pediam ajuda (e que ele conseguia ajudar), fazendo adiantamento para compra de gás de cozinha, financiando a CNH, ensinando os rapazes a dirigir, orientando os rapazes e moldando o caráter.

              O senhor Juvenal disse que se tornou um mestre de obras e que deve grande parte do que conseguiu, aos ensinamentos do sr. Luis. "Pagava mal, mas ensinava tudo a todo mundo", ele disse. Deu um abraço do Negão e disse que era muito grato ao pai dele, que havia aprendido muito com ele.

                  Negão, com os olhos lacrimejando, rebatia! Dizia que se o pai era um "carrasco" com os empregados, dentro de casa ele era ainda pior! De personalidade forte e dominadora, as coisas tinham que ser do jeito como ele queria que fossem. 

                  O senhor Juvenal então disse que durante todo o tempo que trabalhou com o sr. Luis (e segundo ele foram alguns anos), nunca viu o sr. Luis parar em bares e botecos, se embebedar, gastar dinheiro à toa, esbanjar, esse tipo de coisa. Que todo o dinheiro que o sr. Luis conseguia com o negócio, era aplicado em benefício da família. Ele considerava o sr. Luis um herói, porque ele tinha 7 (SETE!) filhos e ainda cuidava da própria mãe. Dos sete filhos, só o Negão de homem! SEIS filhas! E a nenhum dos filhos faltou estudo, alimentação, vestuário, conforto. Não havia luxo, mas viviam com certo conforto.

            O sr. Juvenal então pergunto ao Negão quantos filhos ele tinha. e Negão respondeu que tinha apenas um. 

__ É fácil criar seu filho? - Pergunto o sr. Juvenal

__ É barra! Respondeu o Negão.

__ Pois é .... e você tem um só! Seu pai criou sete! E se ele não fosse o carrasco que foi, defendendo com unhas e dentes o sustento da família, talvez vocês não tivessem o estudo e nem as oportunidades que tiveram. Dê um abraço no seu pai, porque ele é um herói!

__ Não posso! - Disse o Negão segurando o soluço. Meu pai morreu há alguns anos atrás, vítima de câncer! Os filhos já estavam todos criados (passando da adolescência para a fase adulta) e conseguiram se virar, seguir adiante e cuidar da mãe.

           O sr. Juvenal então apresentou seus pêsames ao Negão, disse que não sabia e que lamentava muito a morte do sr. Luis e voltou, cabisbaixo, ao lugar que ocupava antes.

        O Negão ficou ali na mesa mudo, se lembrando do pai e chorando de saudade e arrependimento por ter julgado o pai de forma tão dura.

         Eu, manteiga derretida que sou, chorei junto com o meu amigo. Em parte porque também me lembrei do meu pai, há muito falecido e de quem eu sinto saudades todos os dias da minha vida ...

           O jogo terminou e ficamos sem saber o resultado. Pagamos a conta e fomos embora.


                       


           



             


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